quarta-feira, janeiro 15, 2014

E O MEMORIAL DE SANTO AMARO?

Replico o texto do Ivo Ribeiro, como contribuição para a discussão inadiável, de montagem de um Memorial de uma festa religiosa, com uma programação profana histórica, que inclui uma representação em cena aberta da conversão pela espada - a famosa cavalhada que reproduz a guerra entre mouros e cristãos. Confira:
  • Conversa iniciada hoje
  • Ivo Ribeiro
    Ivo Ribeiro
    A Fé, o Estado Laico (?) e os Idiotas.
    Festa de Santo Amaro na baixada campista, em sua ducentésima quinquagésima quarta edição nos deixa a certeza de um dos mais tradicionais festejos do Brasil. Meus amigos são dois séculos e meio, um quarto de milênio de tradição cultural num país que desde os seus primórdios não contribuiu em nada com a cultura mundial.
    Guardando as devidas proporções essa tradição se assemelha as atividades dos peregrinos que se dirigem a Santiago de Compostela ao norte do continente europeu entre Portugal e Espanha e tantas outras tradições espalhadas pelo mundo afora, cristão ou não. Desde então, gerações e gerações percorrem trajetos extensos e extenuantes. E aqui faço um questionamento, o que move tanto aqui quanto lá milhares de pessoas a percorrerem arduamente estes trajetos? Fé. Em poucas palavras, a certeza de se alcançar algo de especial sem saber como ou simplesmente agradecer. E isso independe de sua orientação religiosa e na verdade você nem precisa ter uma, basta acreditar. Basta ter Fé.
    Na minha primeira peregrinação vi que toda a parafernália que levava comigo se tornou no mínimo um peso extra e desnecessário, não sabia o que me esperava durante o trajeto. Aprendi também que é um momento especial em que me coloco diante da balburdia dos meus pensamentos. E no silêncio interior é que passo a observar logo nos primeiros metros desta jornada que dura em média 6 horas a enormidade de coisas inúteis que pensamos a todo o momento e procuro desliga-los utilizando de alguma concentração e exercício de respiração até atingir o silêncio interior, não conseguiria com alguém ao meu lado a tagarelar.
  • Pessoas a todo o momento, ao longo do percurso te oferecem água, comida, um sorriso ou um simples e alentador: - Deus te proteja e Santo Amaro te acompanhe. - Amém. Retrucava com imensa gratidão! Ao chegar à soleira da igreja da localidade de onde o nome se exalta, as câimbras provocaram dores lancinantes, minhas pernas estavam rígidas, não flexionavam e depois de um doloroso alongamento pensei comigo mesmo; “primeira e última vez”. No entanto, ao perceber a leveza da minha mente e porque não dizer do meu espírito, perceber também o objetivo duramente alcançado, de relembrar das pessoas que ao longo do percurso incentivaram promovendo em mim algumas sensações de solidariedade que me levaram ao pranto silencioso, estas experiências me fizeram pensar comigo mesmo novamente; “primeira e última vez, talvez”. Apanhei um ônibus e voltei para casa.
  • Na segunda peregrinação, um pouco mais escolado, levei apenas a mim mesmo. Cheguei achar, como na primeira vez, que desistiria no meio do caminho e percebi que me encontrava assim porque os meus pensamentos tinha tomado conta da minha mente. Lembrei-me que me encontrava ali com um propósito e comecei em pensamento a agradecer, respirar profundamente, agradecer e assim continuamente até a soleira da igreja e a minha Fé me ajudou. Salve Santo Amaro! Apanhei um ônibus e voltei para casa.
    Neste ano de 2014 fiz este percurso pela terceira vez e como nas vezes anteriores fui sozinho. E pelo simples fato de poder caminhar com as minhas próprias pernas já tenho motivos de sobra pra agradecer a Deus e levar este meu sentimento ao altar de Santo Amaro.
  • Em determinado ponto um jovem uniformizado me entrega uma caixinha de papelão e uma garrafinha de plástico, era um funcionário da prefeitura, percebi que estava numa tenda onde pessoas uniformizadas entregavam este kit, com a inscrição e slogan recorrentes em nossa cidade, aos peregrinos que por ali passavam. Para não ser deseducado apanhei mesmo sabendo da inutilidade daqueles objetos e também que mais adiante daria para alguém que porventura se interessaria e poderia dar algum senso prático àquelas tranqueiras e quem sabe o real senso prático de quem idealizou este marketizinho furreca para angariar votos das pessoas que estavam ali inicialmente para praticar a sua fé. Estado Laico (?) desde que se possam arrumar mais alguns votinhos entregues esses souvenires. A que custo? Não interessa. Desesperador. O trajeto se segue normalmente com cansaço, muitas dores, pois no alto dos meus cinquenta anos até que estou muito bem.
  • Ao chegar mais uma vez ao meu objetivo me coloco aos pés do Altar de Santo Amaro, agradeci e pela primeira vez confidenciei um pedidinho, coisa simples, pois o ano passado, muitas pequenas coisas importantes “inexplicavelmente” não foram concretizadas. A minha parte procurarei fazer com afinco e desvelo o resto a minha Fé vai completar. Desta vez não apanhei um ônibus para voltar para casa. Não estavam lá! E agora? O Estado Laico (?) disponibilizou um monte de lanterninhas inúteis, o importante e o de fato necessário não. Algumas pessoas desnorteadas há mais de duas horas de espera se desmontavam de sono nos meios fios da avenida. Que sacanagem! Até então não havia pensado nisso, achei que fosse normal a condução de volta, estava meio sem saber o que fazer, assim como eu, outras pessoas precisavam retornar logo para trabalhar, não somos funcionários públicos municipais, não tínhamos feriado. E agora? Valei-me meu Santo Amaro!
  • Aos mais exaltados a solução seria atear fogo numa viatura da guarda civil para expressar a indignação dos até então peregrinos e agora os mais completos idiotas, isso proferido pelo próprio governo. Ambulâncias ficaram fora de cogitação, vai que alguém precise de um socorro e além do mais o desfalque das mesmas era grande. Entre uma exaltação e outra eis que surge uma Van (letra maiúscula mesmo, pois essa veio a pedido de Santo Amaro) não tinha inscrição e logo foi cercada pelos agora, idiotas que apesar da relutância do condutor ante aos mais diversos apelos concordou desde que se pagasse uma tarifa 20% mais cara que a habitual a qual todos concordaram sem pestanejar. Viemos umas 30 pessoas sem contar com a tripulação imagina o sufoco! Para o próximo ano farei diferente, não sei ainda o que fazer, vou planejar.
  • Fico com a certeza de três coisas: - A minha Fé em Santo Amaro permitiu essa Graça de retornar a minha casa a tempo em atender aos meus compromissos. - O Estado Laico (?) pecou nesse quesito, deu um tiro no próprio pé e espero que as pessoas que estavam naquele veículo considere isso no momento de eleição. - E, pior que xingar as pessoas de idiotas, foi fazê-las de idiotas.
  • Ivo Ribeiro

Um comentário:

  1. Essa foi a minha primeira, e provavelmente, se Deus, Oxalá e Santo Amaro me permitirem ,será a primeira de muitas.
    Indescritível por mais que o Ivo tão bem o tenha descrito.
    Indescritível explicitar os sentimentos num dos caminhos de fé mundo afora para os que são de fé.De um percurso metafórico para a vida para os plenos de encantamento porém agnósticos como eu .
    Indescritível o caminho e inadmissível as omissões, quiçá tambem as comissões sobre quinquilharias..
    Sobra de generosidade dos companheiros de percurso .Ausência de estrutura, dever de um governo para com os cidadãos que pagam seus impostos.Não importa sua fé.
    Sobra de brindes e ausência de banheiros pelo percusro, obrigando peregrinos, homens e mulheres, buscarem mat(inhos)-sorte que o instante era de paz .Sobrava ureia mas não a ira!
    Sobra de desdém de alguns para com a crença alheia e falta de ônibus para uma grande maioria.
    Que as urnas em outubro respondam na terra e que o Glorioso Santo Amaro rogue sempre por nós sempre .
    Eles passarão ,nós , passarinho!

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