segunda-feira, novembro 13, 2017

CONTO

DES(A)TINO


Ele era ultra metódico. Sempre fora.
Desde menino usava o mesmo ritual para tomar banho: molhava o braço esquerdo, ombro e cabeça; depois fazia a água escorrer sobre o torso em quantidade necessária, apenas, para molhar. Fechava o chuveiro e começa a ensaboar o corpo dos pés para cima. Por fim, a água, ao contrário. Primeiro o braço direito.
Era de pouco falar. Rir? Quase nunca.
No final da tarde, quando deixava o escritório de contabilidade, descia e logo próximo ao prédio, entrava na padaria. Comia o mesmo doce de coco há anos, depois colocava na sacola 6 pães franceses e uma broinha de milho, escolhida, especialmente, para a mulher. As suas duas meninas comiam todos os pães.
Hoje, tudo estava diferente. Até o final da tarde era mais cinematográfico. O horizonte, diferente dos dias comuns, era uma barra degradê de ouro. Seu coração pulsava como um potro sendo amansado.
Ia pegar o ônibus no sentido contrário da avenida. Seu compromisso era fazer a matrícula de sua menina mais velha na faculdade Pública de Direito. Sua menina. A vida é mesmo caprichosa. Ele, quando jovem, tentou inúmeras vezes e não conseguiu realizar seu sonho, o curso de Direito da Universiodade Pública e ela, na primeira tentativa, passou com folga.
Embora estivesse no meio de uma pequena multidão que ia atravessar a rua, não via, nem ouvia ninguém.
Sabia que quando chegasse em casa e desse a notícia da matrícula a sua filha, ela correria para o quarto. Choraria. Faria um drama. Diria que não, que não tinha nada a ver com Direito, mas ele estava convicto que o curso era o melhor para ela.
A menina dizia que queria ser atriz. Deus me livre e guarde! Nem por cima do cadáver dele. Atriz!!??
De repente, as pessoas ao seu redor, recuaram e ele não notou, afinal o sinal abrira.
Não chegou a dar 2 passos, um motoqueiro fugia, em alta velocidade, da Polícia, pela contramão e o atingiu com o quidon sob a axila esquerda. Ele só contraiu o rosto, como quem tivesse levado uma punhalada no coração.
Os pães franceses e a broa de milho rolaram sobre om asfalto.



(FLF)

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