DES(A)TINO
Ele era ultra metódico. Sempre fora.
Desde menino usava o mesmo ritual para
tomar banho: molhava o braço esquerdo, ombro e cabeça; depois fazia
a água escorrer sobre o torso em quantidade necessária, apenas,
para molhar. Fechava o chuveiro e começa a ensaboar o corpo dos pés
para cima. Por fim, a água, ao contrário. Primeiro o braço
direito.
Era de pouco falar. Rir? Quase nunca.
No final da tarde, quando deixava o
escritório de contabilidade, descia e logo próximo ao prédio,
entrava na padaria. Comia o mesmo doce de coco há anos, depois
colocava na sacola 6 pães franceses e uma broinha de milho,
escolhida, especialmente, para a mulher. As suas duas meninas comiam
todos os pães.
Hoje, tudo estava diferente. Até o
final da tarde era mais cinematográfico. O horizonte, diferente dos
dias comuns, era uma barra degradê de ouro. Seu coração pulsava
como um potro sendo amansado.
Ia pegar o ônibus no sentido contrário
da avenida. Seu compromisso era fazer a matrícula de sua menina mais
velha na faculdade Pública de Direito. Sua menina. A vida é mesmo
caprichosa. Ele, quando jovem, tentou inúmeras vezes e não
conseguiu realizar seu sonho, o curso de Direito da Universiodade
Pública e ela, na primeira tentativa, passou com folga.
Embora estivesse no meio de uma pequena
multidão que ia atravessar a rua, não via, nem ouvia ninguém.
Sabia que quando chegasse em casa e
desse a notícia da matrícula a sua filha, ela correria para o
quarto. Choraria. Faria um drama. Diria que não, que não tinha nada
a ver com Direito, mas ele estava convicto que o curso era o melhor
para ela.
A menina dizia que queria ser atriz.
Deus me livre e guarde! Nem por cima do cadáver dele. Atriz!!??
De repente, as pessoas ao seu redor,
recuaram e ele não notou, afinal o sinal abrira.
Não chegou a dar 2 passos, um
motoqueiro fugia, em alta velocidade, da Polícia, pela contramão e
o atingiu com o quidon sob a axila esquerda. Ele só contraiu o
rosto, como quem tivesse levado uma punhalada no coração.
Os pães franceses e a broa de milho
rolaram sobre om asfalto.
(FLF)
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