Fica desconcebido esse Natal como se apresenta.
Fomentador da grande especulação financeira,
Maior mote comercial do ano,
que vergasta e humilha os pobres.
Trata-se de usurpação da mais importante metáfora do
Cristianismo.
Fica estabelecido que, na semana do Natal:
As grandes corporações financeiras assumem o compromisso
de anistiar os seus devedores, principalmente, àqueles que entregaram seus bens
forçados pela adaga dos juros; sejam sítios, bois ou tratores, porque é Natal;
Comportamento idêntico assumirão as financeiras em
relação aos empréstimos de servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Anistia ampla, total e irrevogável dos mais escorchantes juros do mercado,
porque é Natal;
A indústria alimentícia, o ramo de bebidas e, em especial
a Coca-Cola, criadora da figura do Papai Noel, como agente de marketing, doará
sua produção integral nas comunidades mais pobres e periféricas, porque é
Natal;
A poderosas marcas vendedoras de perus e castanhas e
chesters e espumantes e vinhos levarão o que têm de melhor para lautos cafés da
manha em manicômios, hospitais públicos,
presídios e orfanatos porque é Natal;
As portentosas fábricas de brinquedo distribuirão todo o
seu estoque de eletrônicos e manuais às crianças, indistintamente, ricas ou
pobres, porque criança é criança e porque é Natal;
As mega editoras colocarão livros, inclusive, os
festejados lançamentos disponíveis e gratuitos nas praças das cidades, porque é
Natal;
Os pais operários não mais precisarão demorar-se nas ruas
para fugir dos filhos que aguardam seus presentes. As vitrines ficarão abertas
e franqueadas, com renovação permanente de estoques, porque é Natal;
Fica proibido auferir lucros com a festa de nascimento de
Cristo;
Fica permitido dividir, compartilhar, doar, renunciar
porque é Natal;
Professar o verso de uma canção desconhecida: dividir a
sede é ser mais amigo, dividir o trigo, o amor e o pão.
Porque é sempre Natal.
(FLF)
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