quarta-feira, fevereiro 13, 2013

RENUNCIA DE BENTO XVI, UMA DECISÃO HUMANA


GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
Estupefação! O papa Bento XVI, esse homem tão discreto, tão racional e tão frágil, surpreende o mundo inteiro e desaparece repentinamente da nossa vista.
Após 28 de fevereiro, onde ele se encontrará? Talvez num mosteiro de sua terra natal, a Baviera. Em todo caso, não será em Roma.
Uma decisão comovente, modesta, humana. Debilitado em consequência da idade, da doença, ele preferiu se afastar em vez se manter na função, uma vez que suas forças o abandonam.
As cruéis imagens do seu predecessor, João Paulo II, no fim da sua vida devem ter pesado na decisão de Bento XVI. Ele não queria oferecer aos fiéis, como fez João Paulo II, o espetáculo da sua infinita dor.
De uma certa maneira este papa tão discreto, tão pouco teatral, tão "conservador", ao contrário de João Paulo II, terá concluído seu ministério com um gesto insólito e revolucionário: abandonando sua função de papa. É preciso de fato remontar séculos atrás para descobrir alguns precedentes.
Podemos citar Bento IX que abandonou o papado em 1045, mas neste caso ele tinha um motivo singular, pois amava uma mulher e pretendia se casar com ela. Mais tarde, em 1415, o papa Gregório XII se demite, mas era uma época muito particular: a Igreja vivia o drama do "grande cisma do Ocidente". Havia um papa em Avignon; um segundo papa em Roma, enquanto, nos bastidores, um terceiro papa, um antipapa, manobrava. Gregório XII deixou o cargo para restaurar a unidade da Igreja, que não reconheceu o ato como renúncia.
Modelo do século 13. Na realidade conhecemos apenas um precedente da decisão do papa Bento XVI. Devemos remontar ao ano 1294. Celestino V, octogenário, assume o papado por alguns meses apenas, pois prefere se consagrar à meditação mística e se retira para um mosteiro.
Foi significativo, aliás, o fato de Bento XVI, em 2009, ao visitar o local atingido pelo terremoto em Áquila, nos Apeninos, ter se dirigido ao túmulo de Celestino V sobre o qual com frequência dizia que era um dos seus modelos.
Os bookmakers de Londres já abriram seus guichês.
E já circulam nomes para suceder Bento XVI. No momento duas regiões são cotadas: a África (com o nigeriano Francis Arinze e Peter Turkson, de Gana) e Itália (tendo entre outros o cardeal recentemente nomeado de Milão, Angelo Scola), mas os cardeais da América Latina, entre eles o de São Paulo, têm grandes chances, como também um canadense.
Não vamos fazer prognósticos além destes. Em primeiro lugar porque não sabemos nada.
E em seguida porque a vontade da Igreja é de preservar o segredo. O termo "conclave", usado para designar a assembleia de cardeais de menos de 80 anos que formam o colégio eleitoral etimologicamente significa "Cum Clave", ou seja "à chave". Os cardeais são trancados na Capela Sistina até que um nome seja escolhido.
Esse isolamento tem razões históricas: em 1271, em Viterbo, na Itália, os cardeais não conseguiam chegar a um acordo quanto ao sucessor de Clemente IV. Então, os cristãos se enervaram.
E trancaram os cardeais a pão seco e água até chegarem a um consenso quanto a um candidato.
O novo eleito, Gregorio IX, achou o método excelente. E o transformou em norma, que vigora até hoje, com uma pequena nuance: os cardeais trancados na capela não estão mais condenados a pão seco e água.
Tarefa difícil. Seria o momento de fazer um balanço do pontificado de Bento XVI? Ser o sucessor de João Paulo II não era uma tarefa simples. E o frágil, tímido, introvertido, secreto Bento XVI não conseguiu apagar a memória deste atleta da fé, deste fulgurante tribuno que foi seu predecessor polonês.
Sem dúvida Bento XVI é um homem talhado para a meditação, o estudo, a teologia, a oração e a biblioteca e não para governar a Igreja num mar agitado, nestes tempos em que a fé sofre ataques vindos de todos os horizontes e quando se registra um recuo do cristianismo em vastas áreas do mundo, em particular na velha Europa que durante muito tempo foi um dos seus jardins - a França em primeiro lugar.
Bento XVI lutou com coragem. E precisou encontrar uma solução drástica para uma situação muito difícil que foram os escândalos de pedofilia em numerosas igrejas.
Diante do cisma dos fundamentalistas, tentou uma reconciliação com os seguidores do Monsenhor Marcel Lefèbvre. E, em 2007, chegou mesmo a liberar a missa em latim.
Em 2009 suspendeu a excomunhão de quatro bispos ordenados por Lefèbvre. Na ocasião, foi acusado de simpatizar com as posições do bispo. O que não era o caso, mas isso não importa. O essencial a seus olhos era restaurar o manto dilacerado da Igreja.
Resta a pergunta fundamental: Bento XVI estava pronto para pilotar a Igreja numa época em que a história devastada não é mais que uma sequência de violências inauditas e irracionais? Mas, diante dos desafios que os céus turvos do nosso tempo infligem aos homens, que chefe conseguirá cumprir sua tarefa? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

2 comentários:

  1. Bento XVI deixará o Vaticano por causa do crime organizado que atua na Santa Sé

    A semana começou bombástica com a notícia da renúncia do papa Bento XVI, que deixará o comando da Igreja Católica no próximo dia 28 fevereiro.

    O assunto é tratado aos sussurros nos corredores da Santa Sé, como acontece há décadas.

    Uma coisa é a religião católica, outra é o Vaticano, que é um Estado. E como tal tem suas mazelas, seus subterrâneos, suas podridões. O grande fantasma que assombra os frequentadores do Vaticano é o envolvimento com o submundo do crime.

    Há longas décadas sob o controle da Opus Dei, facção ultradireitista do Catolicismo, o Vaticano foi alvo, no início dos anos 80, de um dos maiores e mais sórdidos escândalos de corrupção da história. O papa João Paulo I tentou, em vão, acabar com o fim da corrupção que grassava na Praça São Pedro e envolvia o Banco Ambrosiano, instituição financeira da qual o Banco do Vaticano tinha boa quantidade de ações. Luciani acabou morto 33 dias após ser escolhido papa. O serviço de comunicação do Vaticano informou que Luciano fora alvo de um infarto, mas a história da Medicina não tem qualquer registro sobre a aparência esverdeada de uma pessoa após ataque cardíaco.

    Homem correto e de conduta ilibada, Luciani, que tentou acabar com a lavanderia financeira em que se transformara o Banco Ambrosiano, instituição financeira oficial da Santa Sé. Deu-se muito mal, pois lá atuava não apenas a banda podre do Catolicismo, como a máfia turca e a loja maçônica italiana P2, morreu envenenado por causa de cianureto adicionado ao regular e tradicional chá que tomava todas as tardes.

    Luciani foi substituído no cargo pelo polonês Karol Józef Wojtyla, o papa João Paulo II, que desavisado tentou a mesma empreitada do antecessor. Liquidar as relações criminosas entre o Banco Ambrosiano, a P2 e a máfia turca. Inocente, João Paulo II foi alvejado, em plena Praça São Pedro, por tiros disparados pelo turco Mehmet Ali Agca. Na esteira do escândalo do Banco Ambrosiano, alguns dos envolvidos acabaram assassinados ou se suicidaram.

    Joseph Ratzinger não é um ignaro. Ciente do que acontece diuturnamente nas coxias da Santa Sé, preferiu anunciar a sua saída, justificada por razões pouco convincentes, mas que se dará também à sombra do silêncio, pois mesmo com a idade avançada o ainda papa espera viver em paz e não acabar como Albino Luciani.

    Ratzinger não chegou ao comando do Vaticano sem saber o que por lá acontecia. Por trás da Praça São Pedro – visitada e fotografada por milhões de turistas de todas as partes – funciona uma central de branqueamento de capitais e uma organização criminosa sem escrúpulos e com tentáculos em todos os cantos do planeta.

    A luz vermelha no reduto de Bento XVI acendeu de vez quando, no começo de 2012, vazou o conteúdo da carta enviada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò ao papa. Na missiva que tinha a Praça São Pedro como destino, Viganò, que secretário-geral do governorado do Vaticano, afirmou que na Santa Sé “trabalham as mesmas empresas, ao dobro (do custo) de outras de fora, devido ao fato de não existir transparência alguma na gestão dos contratos de construção e de engenharia”.

    A situação tornou-se ainda mais embaraçosa com a prisão do mordomo do papa, o italiano Paolo Gabriele, acusado de desviar cartas e documentos sigilosos de Bento XVI e seus colaboradores que acabaram publicados em livro.

    A prisão de Gabriele foi anunciada pelo porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, no mesmo dia em que o presidente do Instituto das Obras da Religião (IOR), o banco do Vaticano, foi forçado pelo conselho de supervisão a demitir-se. E na mesma semana em que um livro publicado na Itália divulgava cartas e documentos sigilosos enviados ao Papa, ao seu secretário e a responsáveis do Vaticano, com o objetivo de “expulsar os vendilhões do templo”.

    O crime organizado continuará atuando nos bastidores do Vaticano.

    Fonte:
    Link para esta matéria:
    http://ucho.info/?p=65554

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  2. Crime organizado:parece que esta famiglia dissemina-se como praga.
    Será que o mal é maior que o bem?

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